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Você sabe o que está cantando?

Falar sobre música aparentemente parece ser algo muito fácil, já que ela tem um papel fundamental na vida do ser humano. É uma arte que não tem fim: deixa uma pessoa feliz, eufórica, calma, relaxada e até triste. Ela meche com seu cérebro, desperta interesses e desejos adormecidos, estimula a memória, alivia a dores, previne doenças, conforta o coração abatido, dá ânimo para viver, ela te faz refletir. Como a música é importante no nosso dia a dia, não é verdade? E quando pensamos na música que cantamos na Igreja? Aí temos um tema um pouco mais complexo para discorrer.

Seria impossível falar de música na Igreja sem refletir um pouco a respeito da sua história ao longo do tempo: como eram as letras, melodias e como os compositores elaboravam as suas composições. A música sofreu diversas modificações e influências desde seu surgimento na Igreja, bem como as reformas protestantes. A Reforma de Lutero apresentou cânticos que reforçavam a fé, bem como a prática e doutrina cristã. Já a música idealizada por Calvino, segundo Krüger: “criou um estilo livre de todas as influências profanas, que fosse utilizado somente para o louvor a Deus’’1, eram ritmos e melodias simples. Calvino se preocupou em acrescentar às composições trechos da própria Bíblia, a fim de que fossem memorizados.

Após as reformas, a música continuou a sofrer novas influências, uma vez que as igrejas protestantes começam a protagonizar divisões por desavenças teológicas e doutrinárias. É chegado então o Metodismo, com os irmãos Wesley e com eles um “estilo popular, simples e não profissional, criando os primeiros hinos de apelo, destinados a convites públicos para arrependimento e aceitação do Evangelho”2. Eram hinos simples, com melodias e ritmo compreensível a todos, algumas composições de Charles Wesley são cantadas até hoje.

Nos séculos XVIII e XIX há uma nova transformação nos estilos de músicas nas Igreja. Com grande avivamento nos Estados Unidos, a música agora aparece cheia de doutrinas básicas e de fácil memorização. Já no século XX novas características são acrescidas na música através de influências políticas, sociológicas, científicas e inovações tecnológicas. A música ganha um sentido a mais na vida das pessoas, uma vez que esta é difundida no rádio e televisão com diversos estilos. Ela tinha extrema importância na tomada de decisão pessoal e confissão por Jesus Cristo.

Enfim, a partir daí, penso que nossos pais, ou algumas gerações passadas, viviam em um contexto teológico onde a doutrina estava sendo questionada, por haverem muitas teologias pairando sobre a sociedade. Por isso, as letras de músicas muitas vezes caminham de uma maneira doutrinária. A música contemporânea passa por uma nova era teológica onde somos guiados muitas vezes por emoções e desta forma as composições atuais vêm com esta característica, a preocupação com os sentimentos humanos, ou o próprio eu.

Desde a infância eu sou apaixonada por música. Digamos que boa parte da minha vida gira em torno dela. Cresci num lar cristão e por isso desde os 2 anos já participava dos corais infantis. Cresci em meio as melodias históricas da música na Igreja, mas o que vejo hoje nas composições contemporâneas são melodias fracas e letras infundadas teologicamente. É como se o compositor apenas se preocupasse com a rima, esquecendo-se do conteúdo, trazendo repetições e frases pré-prontas.

Como todo o (a) adolescente eu também não gostava de cantar hinos, achava que era “coisa de velho’’, e o que eu queria na verdade era cantar as músicas de sucesso do momento. Há uma verdade, profundidade teológica e beleza poética dos hinos cantados antigamente. mas se são tão brilhantes, porque eu não os considerava como música boa? Provavelmente por não ter noção desta profundidade bíblica que neles contém. Cantar o que todo mundo está lançando no momento é fácil. Difícil é abrir o HCC (Hinário para o culto cristão) e viver o que se canta.

Talvez você pense: mas que religiosidade querer manter tradições! Porém, essas tradicionais canções nada significam se não comunicarem genuinamente a Palavra de Deus as pessoas. Esta é a comparação que faço com algumas das músicas que cantamos hoje. De maneira alguma, vou generalizar os compositores contemporâneos, pois muitos deles são referência no meio “gospel” há mais de 20 anos como: Asaph Borba, Adhemar de Campos, Gelson Ortega e etc. Trazem canções com conteúdo embasados na palavra de Deus, e hoje continuamos cantando em nossas Igrejas.

Mas quando pensamos no que é sucesso atualmente, será que podemos afirmar que o seu conteúdo é inspirativo a ponto de sermos transformados e renovados espiritualmente? Entendo que quando pensamos em uma música que se “comercializa’’ para gravadoras, onde o foco é apenas o sucesso, provavelmente teremos letras vazias e pouco inspirativas. A chamada era “worship”, em que se repetem por 10, 15 a 20 minutos a mesma frase, tornando o momento de adoração maçante, repetitivo e cansativo. Se pesquisarmos o significado da palavra “worship”, vemos que ela é simplesmente a adoração, que para mim não é apenas o louvor em si e sim um estilo de vida, ao qual eu preciso estar atento diariamente, em todas as minhas ações e em tudo prestar um culto a Deus.

Talvez você não saiba, mas pode estar cantando algumas letras totalmente focadas no seu próprio eu, e não em Deus. A Palavra de Deus fala que nós “erramos, pois não conhecemos as Escrituras” +9(Mt 22:29), desta forma, precisamos desenvolver um senso crítico para analisar as músicas que estamos utilizando em nossas Igrejas, se as mesmas contêm erros teológicos e são devidamente claras a respeito da Bíblia.

Quero hoje te desafiar a ler sobre as histórias das composições do Cantor Cristão ou a HCC (Hinário para o Culto Cristão), trarei um exemplo de uma das minhas canções favoritas: “Sou feliz com Jesus”. (Bem propício para o momento que vivemos)

Se Paz, a mais doce, eu puder desfrutar,

Se dor a mais forte sofrer;

Oh, seja o que for, Tu me fazes saber

Que feliz com Jesus sempre sou.

(http://hinostradicionais.blogspot.com/2013/01/historia-do-hino-sou-feliz-com-jesus-ha.html )

Eu não sei você, mas desde que eu conheci a história desta composição, nunca mais cantei da mesma forma este hino. Ele passou a fazer mais sentido e assim como Jesus ofereceu seu conforto a esta família ele oferece a mim e a você, ele quem nos dá a alegria que o mundo de maneira alguma pode oferecer. Por isso somos felizes com Jesus. Que inspiração linda e brilhante!

O meu desejo é que você pense sobre tudo o que for cantar. Assim como muitas canções antigas foram eternizadas por seu teor firmado na palavra de Deus, que as canções da moda hoje sejam analisadas a fim de também serem gravadas em nossa memória e coração, nos aproximando da presença do Senhor.

Keila Konflanz Weege Rodrigues

Licenciatura em Música – Pós Educação Musical

Bacharelando em Teologia

1 KRÜGER, Hariet Wondracek. A teologia que vem dos palcos. Santo Editora. Curitiba, 2017, p.57.

2 KRÜGER, 2017, p.61

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