Eu como filha

Eu como filha

Hoje eu tentei tirar um tempo de qualidade com a minha mãe. Temos só os domingos pra isso e é como se não tivéssemos, porque é tudo tão corrido domingo, né? Mas hoje deu certo. Estávamos conversando sobre umas amigas minhas quando eu falei: “Comprei um presente pra Tainá… um copo retrátil”. Bem, se você não sabe o que é um copo retrátil, dá um Google aí e depois volta pra cá. Show. Continuemos. Aí ela começou a falar que o nome desse copo é copo sanfona e não retrátil e que isso era tipo um presentinho de crianças nas gincanas que ela participava quando era pequena. O assunto mudou e alguns minutos depois ela saiu com a minha tia. E eu vim pro meu computador escrever pra vocês sobre a lição do copo retrátil.

Pensando em todos esses 25 anos vivendo como filha na minha casa, vejo que o que falamos hoje sobre o copo que comprei pra Tainá resume meu papel como filha (e que esse texto não vá ao ar antes de eu conseguir entregar o presente da minha amiga linda, a Tainá, que coitada! fez aniversário há mais de um mês e eu ainda não dei a ela o tal copo).

Algumas coisas só mudaram de nome e tá tudo bem! Existe um gap de 30 anos entre eu e minha mãe. Três décadas que nem é tanto assim, por um lado (ok ter filhos com 30, né? Hoje em dia então… até com 40). Olhando por outro lado, 30 anos é MUITO TEMPO MESMO. Muita coisa mudou de nome, mudou de lugar, mudou de jeito. Mas essencialmente continua igual. As igrejas mudaram, mas não deixaram de ser sérias (a igreja de Cristo nunca deixa de ser séria. Ela é imaculada! Está em Efésios 5.27, pode conferir). A rotina das famílias mudou, mas família ainda é a essência de Deus derramada na gente e deve ser expressada sempre do jeito dele. As redes sociais mudaram nossa forma de vestir, comer e fazer amigos. As atividades mais básicas do ser um ser humano foram afetadas pelo uso de aplicativos. A gente vê filme com a mão direita enquanto a esquerda dá equilíbrio pra gente no metrô. E tá tudo bem. Se essas mudanças não nos afastam de Deus, não são contra a verdade de Jesus, tudo bem! Mas e quando essas mudanças nos afastam de quem amamos? Temos um problema então. E eu como filha preciso estar atenta para a minha pós modernidade não me tirar dos relacionamentos mais profundos do mundo.

Outra coisa que me veio a mente nesse papo de copo foi sobre como a gente sente diferente dos nossos pais. Talvez você já tenha notado que se veste diferente da sua mãe ou cozinha diferente dela. Você escolheu uma carreira diferente do seu pai ou frequenta uma igreja da deles. Mas você já notou que sente diferente? Minha mãe achou errado uma coisa tão banal, como um copo sanfona (ou retrátil), ser um presente de aniversário. Ela talvez não saiba que agora com todo o lance contra o uso de canudos o pensamento verde está em alta. Ela com certeza não sabe que algumas empresas não adotam mais copos descartáveis e por isso os funcionários levam suas xícaras ou copos portáteis (outro nome possível) tal como é na empresa da Tainá. Enfim. A gente hoje tá sentindo certos impactos de forma mais abrupta e os dias tendem a piorar. Vemos mais tragédias e recebemos mais más noticias (sobre desastres da natureza, violência, economia…) que os nossos pais recebiam quando tinham nossa idade. Hoje temos TV, smartphone, três ou quatro redes sociais. Nossos pais liam jornal. Ouviam rádio. Só. É diferente. E por sentirmos diferente temos a tendência de achar que só nós sabemos, só nós somos as donas das verdades. Detentoras da razão. Colocamos alguns dos sofrimentos e ansiedades na frente de tudo, como se fôssemos as únicas passando pelos dias caóticos de 2019. Não… não é bem assim. Os tempos mudam, mas a humildade é um padrão atemporal. Jesus disse pra gente aprender com ele a humildade, a verdadeira, a de coração (Mateus 11. 28) e isso não deixa de ser verdade com o tempo. Olhar pro outro com humildade é urgente.

Tem ainda outro verso bíblico que acho muito útil quando o assunto é pais e filho. Ele está em Eclesiastes 3.15. “Assim, tudo o que há, já havia existido; o que será, já existiu antigamente; Deus pode renovar o que já passou.” (Bíblia KJA). (Que sabedoria! Que verso abrangente!) Não existe um ambiente tão desafiador quanto nossa casa. Pelo choque de gerações, pelos conflitos de fé, pelas divergências naturais de todo ambiente com pessoas. Mas nós, que conhecemos a Palavra, DEVEMOS nos lembrar que as coisas se repetem. Sofrimentos de hoje existiam antigamente, problemas e dilemas que temos hoje existiam na época dos nossos pais, mesmo que com outros nomes, mesmo que eles sentissem diferente de nós hoje. Isso nos aproxima deles, isso nos permite olhar com mais graça para eles e com humildade podemos ouvi-los. E mais: Deus pode renovar o que já passou. Não tem a ver com o que falamos até agora, mas acho importante destacar que o coração ferido, amargurado, de quem foi abandonada ou menosprezada, Deus quando entra, muda o passado daquele coração. Não nos deixando esquecidas do que aconteceu… Mas nos permitindo lembrar com memórias ressignificadas, com cheiro
de perdão e gosto de paz.

Deus ama minha família e eu devo amá-la também: Essa é uma verdade que nós precisamos carregar de um lado pro outro como um copo retrátil.

Emanuelle Bartolomeu

 

Posted in Conselhos de amiga.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *