Trabalho, relevância e milagre 

Qual tem sido a nossa percepção em relação ao trabalho?

Temos visto o trabalho como um peso, uma maldição? 

Apenas um meio de se ganhar dinheiro e através dele garantir o pão de cada dia? (Ahh… se quiséssemos e trabalhássemos “apenas” pelo pão de cada dia. Pelo necessário para se viver. Mas, quem se contenta apenas com ele? Queremos mais! Muito mais! Em partes, tudo bem, mas sempre lembrando que basta ao dia o seu próprio mal e com isso devemos viver um dia de cada vez e não andar em preocupação com o amanhã, que trará os seus cuidados. Mateus 6.34).

Em Sua soberania, Deus pode fazer tudo o que Ele quiser. Ele opera milagres e maravilhas em nós e por meio de nós, quando e como Ele quer, no momento em que  nos disponibilizamos para o Seu serviço. Quando dizemos a famosa frase: eis-me aqui Senhor!

Desde sempre, Deus usou o trabalho do homem para a realização de grandes coisas, Quer que seus filhos participem do plano Dele. Vemos isso na narrativa do Antigo Testamento inteira. Desde em Gênesis, a criação do mundo por Deus, seguindo para o Éden, dando a incumbência a Adão para que nomeasse toda criatura, a Noé a ordem de construir a arca, a Josué e ao povo a orientação de circuncidarem as muralhas de Jericó, Davi trabalhou cuidando do rebanho de ovelhas da família e de acordo com o que o texto nos mostra, ele era um diligente pastor e no decorrer de toda a sua vida, Deus o usou por meio do trabalho de suas mãos. 

Ouvi recentemente em um vídeo: “O Espírito Santo não age somente através de inspiração, mas também por meio de transpiração.” Na labuta diária e desafiadora, no suor de cada dia, na dificuldade podemos sentir o Espírito Santo agir em nós e por meio de nós.

Gosto muito da história de Naamã descrita em 2 Reis 5 do 1 ao 19 que nos conta que uma menina temente ao Deus de Israel, foi levada cativa para ser escrava na Síria e que por meio dela, do seu trabalho como criada o Senhor foi glorificado usando o profeta Eliseu. Vemos nessa narrativa a força do trabalho mútuo e com propósito: a menina sendo testemunha ao seu amo, o rei da Síria permitindo e provendo tudo para que Naamã fosse à Israel, Eliseu em seu trabalho de profeta e Naamã deixando o seu orgulho de lado e obedecendo a ordem do homem de Deus, sendo assim curado e voltando-se em adoração ao Deus de Israel. O Senhor operou o milagre na vida de Naamã, fez com a  intervenção humana ou faria sem ela, mas preferiu a participação de seus servos e usou ainda os que não o serviam como o rei da Síria e os soldados de Naamã. 

Ainda poderia citar tantos outros como: Moisés, Jacó, Ester, José, Rute, Paulo e o próprio Jesus que é o nosso maior exemplo e motivo pelo qual devemos ver o trabalho como um presente recebido e um ato a ser realizado para a glória Dele.

Torno a perguntar: qual tem sido a nossa percepção em relação ao trabalho? Ele tem sido uma fonte de bênçãos, de regozijo, um meio pelo qual glorificamos ao Pai? Temos dado o nosso melhor ao realizarmos as nossas atividades? Sejam elas quais forem? 

O importante em nossa vida é viver dentro do propósito de Deus. Nas obras preparadas para nós (Efésios 2.10). Deus tem um chamado específico para cada um de nós, dentro desse plano está o nosso trabalho e as obras que realizaremos através dele. Por meio das obras, a nossa fé é aperfeiçoada (Tiago 2.22).

Como temos usado os nossos dons e talentos dados por Deus? Cuidamos da nossa casa para a Sua glória? Ensinamos, medicamos, escrevemos, cozinhamos, atendemos, pintamos, visitamos, vendemos, bordamos, costuramos, construímos, dirigimos, atuamos, encenamos, pregamos para que o Seu nome seja conhecido e assim tudo seja para a glória Dele (1Coríntios 10.31) ou vivemos displicentemente, sem termos consciência de que somos escolhidos para andarmos nas obras que de antemão nos preparou o nosso Pai? (Efésios 2.10).

A cantora Marcela Taís tem uma frase que eu gosto muito: “A Deus entregamos as coisas impossíveis. Quanto as possíveis, façamos nós, Deus faz milagres, não o nosso dever de casa.”

Penso que através do nosso “dever de casa”, da nossa parte sendo realizada, podemos ser muito úteis nas mãos de Deus, trabalhando para Ele com diligência e fidelidade, seja onde for, às vezes podemos não perceber que coisas aparentemente sem nexo que possamos estar realizando estão nos aperfeiçoando, forjando o nosso caráter, nos preparando para coisas maiores e melhores à nossa frente.

O apóstolo Paulo aos coríntios escreve: somente viva cada um como o Senhor lhe determinou, cada um como Deus o chamou (1Co 7.17).

Timothy Keller em sua obra. Como integrar Fé e Trabalho discorre sobre como “a cosmovisão cristã molda todo e qualquer trabalho e que o evangelho é como um par de lentes por meio dos quais ‘enxergamos’ tudo no mundo” (pg 168).

Percebemos que todos os âmbitos da sociedade estão corrompidos e caminham para a destruição. Que através da nossa lente cristã e com a graça de nosso Senhor Jesus, consigamos fazer a diferença, ser referência, falar e viver o amor Dele. Sempre tivemos e quanto mais agora, temos um grande trabalho pela frente!

O futuro nessa vida é desconhecido para nós. Vivamos o hoje, mesmo que em meio à crise, ao caos interno e externo, crendo que Ele trabalha para os que Nele confiam (Isaías 64.4). Que sejamos sal e luz (Mateus 5.13-14) por meio de nossa atuação no mundo e que em meio a dias maus, possamos remir o tempo (Efésios 5.16) dando ao Senhor do universo, nosso Deus e Pai, o melhor e mais relevante serviço. 

Deus trabalha no turno da noite. Obremos enquanto é dia!

Grande abraço da Helencita! <3

REFERÊNCIAS:

KELLER, Timothy e ALSDORF Katerine Leary e. Como integrar fé e trabalho, trad. Eulália Pacheco Kregness. São Paulo: Vida Nova, 2014.