Ana e eu – um relato sobre distúrbios alimentares – Série transtornos alimentares – Testemunho

Meu nome é Andressa, sou cristã, tenho 21 anos e gostaria de compartilhar um depoimento pessoal sobre meu ex-relacionamento com a Ana.

Primeiro, eu gostaria de apresentá-la a vocês.

Não lembro bem a data exata em que a conheci, mas, teve um tempo em que éramos melhores amigas. Eu contava com ela para tudo, durante todo o meu dia. Foi assim durante aproximadamente 7 ou 8 meses, quando eu tinha 17 anos.

Nesse período, cada vez que eu me olhava no espelho Ana (Anorexia Nervosa) estava lá, me apoiando e me encorajando a continuar amiga dela. Só que Ana era o tipo de amiga que sufocava. Ela elevava minha auto estima e logo em seguida derrubava. Ana era maldosa e me queria só para ela. Ana era muito ciumenta, me fazia depreciar minhas outras amigas, me fazia acreditar que o isolamento era a melhor opção, que eu só podia contar comigo mesma ou então que eu podia chamá-la quando as coisas estivessem ruins. Só que só piorava as coisas mais e mais, a cada dia.

Ana me fazia acreditar que pra ser aceita eu precisava manter uma aparência perfeita, mesmo que por dentro estivesse destruída. Isso exigia, acima de tudo, estar magra. Embora meu relacionamento com Jesus estivesse firme, Ana sempre cochichava ao meu ouvido que eu não era realmente amada por Ele. Aliás, Ana usualmente usava as palavras dEle para atingir seus objetivos. Ela dizia: “Tenha domínio próprio! Não é isso que diz a Bíblia?” quando eu exagerava na comida. E quando eu pecava ela lançava sobre mim um sentimento de culpa muito grande, totalmente o oposto do que Jesus faria.

 Eu comecei a viver em função da magreza que Ana me sugeria seguir. Logo pela manhã, ao acordar, ela estava lá me esperando no espelho. Eu olhava aqui e ali, sempre encontrando um defeito ou outro na minha silhueta, sempre insatisfeita. No café da manhã, Ana também estava lá me esperando. Minha mãe gentilmente preparava um copo de Nescau e me oferecia umas bolachas, mas Ana segurava minha mão para que eu nem sequer pensasse em encostar nas bolachas. Pouco a pouco, Ana também foi controlando o tanto de Nescau que eu tomava. No ápice do nosso relacionamento eu saía de casa para ir para o colégio apenas com metade de um copo de Nescau light.

Logo minha mãe percebeu esse comportamento estranho e tentou de todas as formas me ajudar. Ela percebeu que eu estava parando de comer os lanches convencionais que eu levava para o colégio. Obcecada por rótulos de todas as coisas que ela comprava, se não me agradasse, eu simplesmente não comia. Então, para que eu não ficasse sem comer nada, todos os lanches tinham que ser light ou diet.

Outra pessoa que tentou me salvar do comportamento obsessivo sugerido por Ana foi a Déa. Déa estava sempre preocupada comigo, porque na hora do almoço eu diminuía cada vez mais as porções de arroz, feijão e carne, que ela cozinhava com tanto carinho. Eu frequentemente ficava chateada com Déa por repetir que eu não estava me alimentando direito. Eu achava que Ana tinha muito mais razão. “Só vou comer duas colheres (daquelas de sopa) rasinhas de feijão e três colheres de sopa de arroz. Metade de um pedaço de carne e o resto do prato todo de salada”. Se tinha suco tinha que ser com adoçante e eu só aceitava se fosse metade de um copo.

Era incontestável discutir com Ana. Não importava quem fosse. Tínhamos um acordo: eu só pararia a dieta nos fins de semana porque, afinal, eu não conseguia viver sem pizza e sorvete. Então, nos finais de semana, eu tentava comer tudo que eu conseguia comer quando saíamos em família ou quando eu saía com meu namorado. Eu não conseguia comer igual a todo mundo, sempre tinha que ser exageradamente mais, como se o mundo fosse acabar. 4 pedaços grandes de pizza e de sobremesa um sorvete não me satisfazia. Só que em vez de me ajudar, Ana me enchia de culpa, até usando palavras da Bíblia, dizendo que eu estava pecando por glutonaria. Por conta disso, na segunda eu voltava com mais restrições ainda à rotina alimentar. No período da tarde eu fazia cursinho pré-vestibular que durava a tarde inteira e também me recusava a levar algum tipo de lanche. No máximo uma barra de cereais e tinha que ser até 70 kcal. Às vezes eu comia metade de uma barrinha pela manhã e a outra metade pela tarde. Quando eu voltava do curso, ia logo para o quarto para não sofrer a tentação de comer algo.

Meu pai sempre aparecia na porta do quarto com um copo de vitamina de frutas, mas eu só tomava dois ou três goles e devolvia o copo dizendo que estava satisfeita. Eu vivia em função do final de semana, que logo me dava oportunidades para comer minhas comidas favoritas “sem culpa” porque eu teria emagrecido durante a semana. Infelizmente, a culpa sempre voltava, principalmente quando as pessoas me diziam: “Como é que tu come tanto e é magrinha assim?”. Esse tipo de frase era um insulto para mim, porque eu batalhava muito durante a semana para poder comer minhas coisas no sábado e no domingo, mas por que a culpa continuava lá?

Ana não mandava eu colocar para fora a comida que tinha exagerado. “Pelo menos nisso ela é legal comigo” – eu pensava. Afinal, eu já tinha ouvido histórias macabras de meninas que vomitavam depois de comer muito e ficavam com vários problemas no esôfago. “Deus me livre de ser uma dessas com distúrbios alimentares!” – mal sabendo que eu já estava tão obcecada pela magreza quanto essas meninas, só eu que não sabia ainda.

Nessa época, Ana me fazia olhar para o corpo das minhas amigas e achar que todas estavam mais magras do que eu. Ela me fazia sempre usar da justificativa “estou gorda” para recusar algum docinho, até mesmo balinha. Minhas amigas me diziam: “Tu não tá gorda, Andressa!” Só que isso não me entrava na cabeça. Eu me olhava no espelho e me via gorda, sim! Como que elas não conseguiam perceber isso? Eu olhava para minha barriga enquanto estava deitada e às vezes pensava: “Será que estou emagrecendo?”, daí eu me virava de lado e via uma super barriga proeminente. Como eu era totalmente sedentária, pensava que não podia comer mais de 500 kcal por dia, já que eu não gastava nada praticando atividades físicas.

O tempo foi passando e eu não conseguia me desvencilhar da Ana. Ela foi me deixando um pouco confusa com o passar dos dias. Até tinha momentos que eu amava minha imagem no espelho e isso me impulsionava ainda mais a continuar ligada a ela. Meu rosto foi afinando, tava meio estranho… Meu namorado depois me disse que eu só tinha “olho e dente”, mas, naquela época só me importava que eu conseguisse perder aquela barriga… E eu fui perdendo. Mesmo assim, eu sempre repetia que estava muito gorda. Não apenas gorda. MUITO gorda. Eu não conseguia ver meu corpo de outra forma. Ele estava inapropriado.

Durante esses 7 meses aproximadamente eu estava muito focada nos estudos e não me interessava em fazer compras ou algo do gênero, então, eu só me dei conta que estava perdendo as roupas ao longo do tempo. Durante esse período eu não tinha subido numa balança, então, eu não tinha consciência do meu estado de verdade.

As roupas estavam mais folgadas e algumas saias minhas estavam totalmente inutilizáveis. Ana começou a me acusar que eu não tinha mais nenhuma roupa que servisse bem, que eu só podia ser muito gorda mesmo, afinal, pessoas magras sempre ficam bonitas nas roupas e as minhas estavam desajeitadas. Isso foi me deixando irritada. Não é contraditório? Ana me ajudava a escolher os looks e com o passar do tempo só sobrava regata, daquelas bem coladas, ou coisas com muito elastano, porque nada caía bem devido a magreza. Eu me escondia atrás de alguns vestidos que sobraram também.

Como cristã, minha vida com Deus estava muito bem. Eu já havia lido a Bíblia inteira 2 vezes e minha leitura diária estava em dia, meus compromissos na igreja, meu relacionamento com Jesus. Eu o amava mais do que tudo. Eu tinha meu diário de oração, procurava servi-Lo de todo coração. Eu acreditava na Graça Soberana de Deus, que nos salvava mediante a fé, e não pelas obras. Inclusive estava lendo bastante sobre teologia, assistindo às pregações de John Piper, Paul Washer e outros reformados. Logo, os sentimentos que Ana despertava em mim não pareciam ser nada demais.

Eu não acredito que esse tipo de coisa tenha surgido por uma falha na minha vida espiritual, como algumas pessoas defendem, mas, por uma circunstância vivida por muitas adolescentes na sociedade ocidental de hoje. Acredito que isso tudo teve um propósito maior. Acredito que ele tenha permitido que eu vivesse essa experiência para que através do meu depoimento eu pudesse ajudar outras meninas que passam por essa situação.

Falar sobre Ana e sobre Mia (Mia é uma amiga da Ana – aquela que faz as meninas vomitarem a comida por culpa) ainda é um super tabu na igreja. Até porque, como diz aquele ditado, “crente não bebe, mas, come que é uma beleza”, então, às vezes, as compulsões alimentares ficam veladas.  Muitas meninas passam por isso e são julgadas como fúteis, histéricas e estranhas. Muitas meninas só encontram consolo em outras seguidoras de Ana, o que não ajuda muito. Às vezes, Ana pode até ensinar as meninas a se automutilarem, para aliviar a carga emocional que a presença dela trás.  Muitas meninas sequer sabem que estão passando por isso, como foi o meu caso.

Parecia que nada ou ninguém conseguia me convencer de que eu não estava gorda. Até que, certa vez, me ocorreu um estalo.

Era Junho, mês das típicas festas juninas. Em um desses eventos, havia um stand de Nutrição e eu não sei de que maneira fui parar lá. Eu não gostava muito de balanças e não tinha noção de pesos. Então provavelmente aquela balança acusaria meu sobrepeso teórico e eu não queria mais essa culpa para meus fins de semana compulsivos. O que eu lembro dessa ocasião é que uma moça me pesou, mediu minha altura e calculou meu IMC. 1,65 de altura, 47 kg e IMC de 17,26. Eu dei um sorriso um pouco envergonhado, apesar de não saber o que essas medidas significavam, mas, de alguma forma dei a entender que eu não estava satisfeita com ele. Lembro que a única referência de peso que eu tinha era que se passasse de 60 eu estaria obesa porque eu já havia pesado 60 e pouquinho na infância e tive que regrar a alimentação durante um curto tempo. 47 parecia ruim mesmo assim.

A moça do Stand olhou para mim e disse: “Você está desnutrida”. Eu estava com desnutrição grau I.

Como assim? Eu, desnutrida? Como uma pessoa gorda fica desnutrida? Se eu estou desnutrida então quer dizer que isso é bom para mim!

Tentei dar alguma explicação para a moça, tentei me justificar de alguma forma. Isso não pode estar acontecendo. O cálculo deve estar errado. Eu não estou desnutrida. Estou me sentindo ótima, não sinto nenhum tipo de tontura, nunca desmaiei.

Aquilo ficou martelando na minha cabeça por algum tempo. Não foi fácil acreditar naqueles números. Tive algumas conversas com meu namorado sobre esse sentimento misto de orgulho por estar desnutrida e confusa por aqueles números não demonstrarem o que meus olhos viam diariamente no espelho. Ana insistia que aquilo era coisa da minha cabeça, que era o espelho que estava certo, que eu precisava me concentrar em manter a dieta do mínimo de calorias possível por dia para que no fim de semana eu pudesse comer minha pizza, meu churrasco, meu sorvete, meu pastel em paz. Só que eu comecei a não usar mais o argumento do “estou gorda” para as pessoas que me ofereciam comida, porque elas estavam com a razão o tempo todo. Gorda eu não estava.

Em vista disso, algumas coisas passaram a mudar. Além de parar de usar o argumento de “estar gorda” perante as pessoas, eu comecei a falar sobre esses sentimentos de culpa enterrados no meu íntimo para meu namorado, que me ajudou consideravelmente naquele período através de uma escuta empática. Como a gente se via apenas nos fins de semana, ele não sabia que durante a semana eu me privava de todo tipo de comida. Fomos conversando sobre isso e orando também.

Era travado então uma guerra. Andressa que dava ouvidos à Ana vs Andressa que raciocinava e orava sobre isso. Era muito difícil ter que desconstruir todo aquele pensamento de restrição de calorias. Era ainda mais difícil ver a verdadeira Andressa no espelho e não uma versão obscura de uma Andressa gorda. “As minhas culpas me afogam; como fardo pesado, tornaram-se insuportáveis para mim” (Salmo 38:4).

Certa vez, meu namorado me lembrou de um versículo:

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?
Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês.” (I Coríntios 6:19,20).

Eu já havia lido esse texto zilhões de vezes! Inclusive, às vezes, Ana usava esse texto para me manipular a comer ainda menos, uma vez que se meu corpo é o templo do Espírito Santo, ele precisa ser muito magro e perfeito. No entanto, naquele momento, eu estava conseguindo dar nome ao meu problema, logo, esse texto soou de uma maneira inédita para mim.

Ao entender que minha amiga Ana era nada mais nada menos do que um distúrbio alimentar chamado Anorexia Nervosa, uma perturbação caracterizada por uma distorção da imagem corporal, um medo extremo da obesidade e a rejeição de manter um peso mínimo normal, comecei a pedir sabedoria ao Espírito Santo para sair de tal condição.

Não foi fácil vencer os meus olhos. Não foi fácil parar de dar ouvidos à Ana. Não foi fácil tomar a outra metade do copo de Nescau antes de sair de casa. Não foi fácil ter que aceitar um doce das amigas sem sentir culpa. Com o passar do tempo, o domínio que Ana tinha sobre mim foi diminuindo, mas, não desapareceu completamente. Eu sempre pedia a Deus que ela sumisse da minha vida, que eu nunca mais tivesse os pensamentos doentios de culpa e rejeição, que eu fosse apenas uma adolescente normal, como todo mundo. Que eu ficasse satisfeita com, quem sabe, apenas dois pedaços de pizza. Que eu não me comparasse com as outras mulheres.

Hoje, aos 21 anos, com o IMC na faixa da normalidade e 13 quilos a mais, posso afirmar que a luta não acabou. Mesmo estando saudável, os pensamentos sobre meu corpo oscilam. Fiz acompanhamento nutricional e encontramos o meu peso ideal, o que me sinto mais satisfeita, e definitivamente não é 47 kg. Além disso, depois de entrar na faculdade de Medicina, consegui ter parâmetros melhores sobre saúde e também fiz avaliações físicas por um profissional Educador Físico. E, sim, algumas extravagâncias ainda acontecem nos finais de semana, mas, a maneira como eu lido com elas mudou.

Estou vivendo um dia de cada vez. Alguns dias são melhores que outros. Não exijo mais que Deus tire de mim todo pensamento compulsivo ou autodepreciativo, mas, peço ao Espírito Santo que me dê forças para lidar com eles. Afinal, se até Paulo teve que lidar com um “espinho na carne”, por que eu seria melhor do que ele para não merecer um espinho também?

Se você tem uma amiga que apresenta o mesmo comportamento que eu tive, não menospreze os sentimentos dela. Ficar dizendo que ela não está gorda pode não fazer diferença. Pessoas acima do peso também podem se privar de comida e depois comer compulsivamente, sentindo a velha culpa depois. Cada pessoa tem uma história, cada pessoa tem suas dores e problemas. Pode não estar tão claro para quem passa por problemas como Anorexia ou Bulimia que a aceitação da sociedade não importa se temos alguém que já nos aceitou: Cristo, e pagou um alto preço por isso. Tenha paciência e procure ouvir e orar junto. Algumas meninas levam mais tempo do que outras para se darem conta que isso não é normal e precisam de ajuda. Eu levei meses e posso garantir que ainda lido com a voz da Ana de vez em quando.

Por fim, se você está lutando contra qualquer tipo de distúrbio alimentar, seja ele Anorexia ou Bulimia, saiba que você não precisa lutar sozinha. Jesus está contigo nessa. Eu também estou aqui para ouvir tua história. Lembra que: “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele lhes providenciará um escape, para que o possam suportar.” (1 Coríntios 10:13)

Vivendo um dia de cada vez.

Com carinho, Andressa Paz (andressazap@gmail.com).

capturar

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