Adolescente pode ter depressão?

Para quem é da área da medicina, da psicologia a pergunta é óbvia, mas para muitas pessoas (sério, muitas mesmo) a depressão em adolescentes é mais uma modinha atual que pode ser curada à base de laço. Ou seja, depressão não é considerada como doença, mas sim falta de disciplina dos pais, falta de trabalho, etc… Será mesmo? Ontem, por várias vezes, vi pessoas postando em suas redes sociais comparações de como era na sua época de adolescência e como é na atualidade.

Mas o engraçado é que muitos que falam que adolescente não pode ter depressão, e o fato deles aderirem desafios como a Baleia azul está na “falta de laço” são os que tomam antidepressivos e precisam de cuidados médicos na vida adulta. Aí nos deparamos com algo esquisito, pois para os adultos a depressão é considerada doença, mas para os adolescentes: frescura e falta de laço.

Eu sou formada em teologia e reconheço que não tenho o conhecimento nem os termos adequados para fazer uma explanação científica sobre depressão, e nem o quero fazer, pois essa não é minha área de formação. Mas sempre trabalhei com adolescentes e reconheço que o desafio da baleia azul e a série 13 reasons why trazem à tona o coração de muitos adolescentes. O maior problema não está na série e nem no desafio da baleia, o problema está nos corações solitários e infelizes desta geração. Nesses jogos muitas vezes eles encontram o refúgio, se acham livres para fazerem e falarem o que quiserem (pois muitas vezes em casa isso não é possível), sem ter a percepção que cada objetivo alcançado é um passo a mais que os aproximam da morte.

Por diversas vezes, conheci adolescentes com corações quebrados e chorei com eles as suas dores. Há histórias que deixaram marcas em mim até nos dias de hoje, pois são carregadas de abandono, solidão, conflitos, medos, decepção, traição, abusos… Se os ouvirmos, jamais trataremos suas dores como “frescuras” ou “dramas”, pois elas são reais, os machucam e aprisionam. Mas aí está um grande problema: Não os ouvimos! Não os vemos!

Esta tristeza na maioria das vezes é ignorada. Os bastidores são apagados. As dores da alma são desmerecidas. Os abusos não são tratados como verdadeiros. O abandono não é digno de atenção. Estamos com os olhos abertos para enxergar além do comportamento que chamamos de frescura? Ou estamos percorrendo o caminho inverso de olhar o comportamento, mas desassociá-lo do coração?

Percebo que há uma necessidade de “gente adulta” que ame essa geração de adolescentes e que os escutem sem taxa-los por: dramáticos ou problemáticos. Precisamos de pais que se conectem mais com seus filhos e líderes que os amem.

Ah, como espero que estejamos com os corações cheios de amor por essa galera especial que nos cerca. No jornal Gazeta do povo, (19/04) o jornalista Júlio Boll relata que criou um perfil falso e entrou em grupos do desafio Baleia Azul e disse que queria aderir ao desafio, mas pessoas vieram falar in box com ele incentivando-o a não fazer isso, pois sua vida tinha valor (síntese). Esse fato me leva a uma reflexão: Temos dito aos nossos adolescentes quanto sua vida é importante e pode ter sentido?

  • Ao nosso lado pode ter um adolescente que se sente sozinho em sua casa, onde os pais vivem num mundo isolado e dolorido;
  • Pode ter um adolescente que sofre bullyng por causa do tom da sua pele e sofre calado;
  • Pode ter um adolescente que tem pais rígidos que só desferem palavras de derrota e fazem questão de dizer que eles não valem nada;
  • Pode ter uma adolescente que sofre abuso de seu padrasto ou do seu tio;
  • Pode ter uma adolescente que tem crises de autoestima continuamente porque desde pequena gritavam no seu ouvido que ela era horrível e ninguém a desejaria;
  • Pode ter um adolescente que aos seus olhos tem uma vida perfeita, pais, amigos, mas que se sente igual a Hannah do 13 reasons why e só pensa em tirar a sua própria vida.
  • Pode ter um adolescente com depressão.

Então, se a moda é falar de desafios, que nos desafiemos a nós mesmos e achemos 50 razões para amá-los e mostrar que Jesus também os ama e está disposto a ajuda-los nas fases complicadas da vida.

Marta Hoffmann Bueno

Textos com dados e informações recomendados sobre o desafio da baleia azul e suicídio:
http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/bad-bad-server/jogo-baleia-azul-eu-tentei-jogar-o-game-de-suicidio-e-o-resultado-e-surpreendente/
http://renatovargens.blogspot.com.br/2017/04/a-baleia-azul-e-triste-realidade-de.html
http://emais.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/jovens-nao-precisam-de-13-razoes-para-se-matar-basta-uma/

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2 Comments

  1. Valeu, Marta, pela excelente advertência que vale para adolescentes e para quem caminha com eles.
    Adolescente cristão pode, sim, ter depressão – como também pode ter diabetes, gastrite e todas as outras doenças às quais estamos sujeitos enquanto vivemos aqui neste mundo.
    Embora a depressão envolva uma porção de elementos, geralmente ela tem um aspecto fisiológico (físico) que que precisa ser tratado como se trata qualquer outra doença.
    Depressão não é sinônimo de falta de fé, falta de oração, ou falta de intimidade com Deus, como se costuma pensar em muitos meios evangélicos.
    Precisamos nos informar melhor, abrir a mente para o conhecimento que Deus tem permitido que a psiquiatria, a psicologia e outras áreas da ciência desenvolvam. E, principalmente, precisamos pedir a Deus que nos ajude a colocar de lado preconceitos e julgamentos e no dê profunda compaixão por aqueles que lidam com questões da saúde mental.
    Uma pessoa que encara o desafio da depressão muitas vezes precisa de medicamento, terapia e mudança de hábitos. Mas, como você destacou tão bem, precisa principalmente de verdadeiro e incondicional amor cristão.

    • Que legal ter você por aqui.
      É um imenso prazer <3
      E vamos seguindo amando esses adolescentes preciosos para o Pai.

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